segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sobre dúvidas e negações


   Todos os dias é preciso duvidar daquilo que tenho como certo e que tem-se enraizado dentro em mim. Isto, afinal de contas, não deixa de ser um tipo de auto-negação. Uma maneira de zombar, olhando para o espelho de minha alma ou de nossa suposta sabedoria. Pois nesse dias de informações na velocidade da luz e de mentiras e boatos que se passam por verdades é muito fácil e confortável flertar com uma verdade que não é verdade, com uma mentira vestida de verdade, com um boato transmutado em algo real. Resta a cada dia, diante do espelho da alma, pôr em cheque cada verdade, cada ideia, cada fundamento, cada conceito e filosofia, peneirar por assim dizer, e aproveitar, se é que isto é possível, o que há de proveitoso em nossa jornada rumo ao conhecimento. 
  Este tipo de receio interior por aquilo que achamos ser verdadeiro ou correto, este ceticismo de nós mesmos, esta constante suspeita de nossas habilidades intelectuais é acima de tudo um negar-se contínuo que ofende nosso ego, que entristece nosso eu mas que liberta, desafoga nossa alma para o novo, o novo que desagua fatalmente em Cristo. Quando duvido que sou sábio, então Cristo se faz sabedoria em mim. Quando questiono minhas habilidades para lidar com os que me rodeiam permito que Jesus tome o rumo de meu comportamento com os mesmos. Se nego meu saber tão transitório e insípido em detrimento do supremo conhecimento de Cristo se fazendo presente em mim, em nós, então a inteligência passa de um mero substantivo para a profundidade gloriosa da sabedoria de Jesus, atuante. 
  Quando duvido de mim tenho certeza em Cristo.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Lemniscus


    Descobri recentemente que detesto o mundo não pelo fato do mundo ser exacerbadamente mau e intrinsecamente doente, mas sim pela mais simplista das razões, detesto-me e por conseguinte vejo refletido no mundo aquilo que sou, puramente doente. Resumidamente o padrão inalcançável que o mundo impõe para poder seguir por ele com certa dignidade é na verdade o padrão que eu mesmo imponho, as pedras pelo caminho são atiradas da cesta que carrego em meus braços, pela força ou não, de meu próprio braço. O caminho trilhado por mim, cavocado na areia ressecada leva-me a mim mesmo. Um círculo, onde atalhos de pouco importam pois levam ao mesmo fim, eu. O mundo e suas bestialidades, a sociedade e suas chagas são o produto acumulado de anos, milênios de afastamento de seu Curador, de seu Criador. Desta feita por ter nascido nesta terra de cangaceiros e suas peixeiras enferrujadas, de homens de pouca fé e muito inútil saber, acabo por galgar os mesmos passos cambaleantes dessa frenética e moribunda sociedade.
    A questão marginal seria, afinal, se sou resultado de um mundo mal ou se este mundo pérfido é o reflexo de minha maldade.
   A grande dúvida por fim seria se depois de metade de uma vida humana vivida eu ainda realmente deveria me importar em me encaixar nesta gigantesca e transloucada roda gigante chamada vida. No mais, ainda valem o suor e as lágrimas para rastejar dignamente por este mundo? Percorrendo o meu caminho circular, do ponto onde me encontro, catando as pedras que estranhamente sinto-me atraído, eu responderia que não. Mas sempre haverão aqueles que pensam diferente por nós, sempre haverão tantos quanto são as pedras adormecidas em minha cesta, esperando serem lançadas por mim em meu próprio caminho.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Manifesto do “redentor”



Este manifesto foi encontrado entre os pertences de um jovem que se auto-intitulava "o redentor", jamais foi visto novamente. Segue parte do documento vazado dos arquivos da PF.

“Não matarás”, o dito mais desprezado pela humanidade desde seu alvorecer até com certeza sua consumação. Olhai os campos salpicados de sangue, inocente ou não. A culpa por matar recai apenas sobre quem puxa o gatilho, empunha o punhal, atira a pedra. Cada inocente morto ou cada culpado morto deu asas à sua alma independente de quem lhe mostrou o caminho do desfiladeiro. A morte existe, não importa quem a faça acontecer, pagará pela culpa do sangue derramado o culpado, e nada mais. A culpa é pesada? Deveras. Mas o que mais poderia se extrair do culpado senão o seu próprio sangue? Tira-se uma vida e o solapador de tal vida perde a sua também. Uma morte limpa por uma morte limpa. Não consideramos a tortura, desprezível. Tortura maior é a vida em toda sua complexidade e doença.

[Trechos censurados]

Pessoas perambulando como zumbis, almas medíocres, cheias de um vazio lastimável e repugnante. Dentes à mostra em toda sua falsidade. Clubes apinhados de doentes. Bêbados, drogados, prostitutas, gays e lésbicas. Nas calçadas ao relento a escória rebaixada ao nada por uma lei invisível mas extremamente palpável. Bordéis espumando loucura, fornicação, adultério e desprezo sexual. Praias com suas úlceras bronzeadas, mares poluídos por estrumes motorizados e sonorizados, expondo suas belezas finitas e calcificadas de tédio e ócio. Cidades queimando seus cigarros e defuntos. Fedendo à interior de vermes expostos. Crianças correndo de um lado para o outro buscando o sonho perdido de seus pais, perdido em vielas e livros e lousas descascadas de ignorância. Professores emburrecidos sapateando como moleques sobre as moedas de seus salários. Policiais calibrando suas pistolas enferrujadas. Domésticas, lixeiros, vendedores, doentes terminais, comparando suas vidas estúpidas à de advogados, empresários, juízes, engenheiros, políticos, saçaricando suas ideias por baixo das barbas da sociedade senil. Amontoado de seres se acotovelando diante da TV, da internet, certos de que sua exímia sabedoria e pedantice pode modificar o status quo mundial. Sociedade chafurdando o lixo dos pais, e os pais o de seus pais e avós, numa sucessão de fracassos e perdas e derrotas. Gente repugnante!

[Trecho censurado]

Mas olhem por detrás daquela moita esquecida pelo homem, ressecada pelo tempo. Observem como se move candidamente mesmo suas companheiras estando estáticas. De longe um brilho como de estrela tardia concede um vislumbre do redentor as avessas. O brilho que ninguém percebe espoca e troveja, adiante um corpo tomba, e depois outro e outro. Gritos, correria, os dias mudam. Pela lente do fuzil camuflado pela moita um olho espreita com dor a lástima humana. Uma dor necessária.

Quem mata pouco tem a explicar. Quem morre já não fala. Cada vida é um soluço de prazer e pesar. Cada gota de sangue uma ode ao acaso, ao ocaso do homem. Homem que jamais foi considerado digno de pisar a relva. Mas e os amigos e familiares dos que foram libertos da ojeriza? A dor é quantificada e não exponencial. É doada em doses certeiras sobre cada homem, vivo ou morto. Não se chora pelo que partiu mas pelo vazio que tal deixou. É o vazio que machuca, que enluta, não a falta do outrem. Até na morte os vivos esgaçam seu egoísmo. Os que se foram dormem em paz, ou gritam em terror. Mas seria diferente se mortos pela falta de ar nos pulmões, ou pelo negar do coração em bater? Se atropelados ou afogados a dor seria atenuada? A morte vem como o vento, de repente e sem avisar, não pede licença nem dá adeus.

[Trecho censurado]

Os corpos são contados e empilhados. Numerados, já não passam de estatísticas e de lugares ocupados em jazigos. Foram dois, três, poderiam ser dezenas. O “redentor” é o culpado, e a ele só resta a justiça, sem sentimentalismos. Regra sobre regra, lei sobre lei.

[Trecho censurado]

Quem segurou a arma? Quem empunhou o sabre? Um rejeitado. Juiz de si mesmo. Olhos cansados do cansaço. Vistas cheias de nojo de uma sociedade singular em suas escolhas, pluralista em suas abominações. Libertou os doentes do câncer da vida, deu-lhes o refresco da liberdade tardia. Cheio de temores foi expulso da roda dos sábios. Frustrado, foi derrotado por sua abertura pacífica aos homens de alma belicista. A dor lhe mostrou que dar-se à outrem é permitir o terror na alma. Mas calaram os roedores de dinheiro e migalhas, alguns grasnam, mas já não passam de ambulantes cheios de si. Agora apavorados e conscientes da existência perene, aguardando a justiça manietada pela falha humana, gorgolejando aforismos nos dias que seguem, como se isso bastasse para apaziguar o terror interior vivo em corações redentores esperando espocar por detrás de outra moita a morte aos zumbis sem vida.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Emmanuel

 
  "Nenhum outro nascimento de um deus, nenhuma outra infância de um sábio nos parece ser o Natal nem algo parecido com o Natal". [...] "Onipotência e impotência, ou divindade e infância, criam definitivamente uma espécie de epigrama [poema] que uma milhão de repetições [natais] não consegue transformar numa banalidade. Não é nenhum exagero chamá-lo de único. Belém é decididamente um lugar onde os extremos se encontram".

- Chesterton em O homem eterno