Este manifesto foi encontrado entre os pertences de um jovem que se auto-intitulava "o redentor", jamais foi visto novamente. Segue parte do documento vazado dos arquivos da PF.
“Não
matarás”, o dito mais desprezado pela humanidade desde seu
alvorecer até com certeza sua consumação. Olhai os campos
salpicados de sangue, inocente ou não. A culpa por matar recai
apenas sobre quem puxa o gatilho, empunha o punhal, atira a pedra.
Cada inocente morto ou cada culpado morto deu asas à sua alma
independente de quem lhe mostrou o caminho do desfiladeiro. A morte
existe, não importa quem a faça acontecer, pagará pela culpa do
sangue derramado o culpado, e nada mais. A culpa é pesada? Deveras.
Mas o que mais poderia se extrair do culpado senão o seu próprio
sangue? Tira-se uma vida e o solapador de tal vida perde a sua
também. Uma morte limpa por uma morte limpa. Não consideramos a
tortura, desprezível. Tortura maior é a vida em toda sua
complexidade e doença.
[Trechos
censurados]
Pessoas
perambulando como zumbis, almas medíocres, cheias de um vazio
lastimável e repugnante. Dentes à mostra em toda sua falsidade.
Clubes apinhados de doentes. Bêbados, drogados, prostitutas, gays e
lésbicas. Nas calçadas ao relento a escória rebaixada ao nada por
uma lei invisível mas extremamente palpável. Bordéis espumando
loucura, fornicação, adultério e desprezo sexual. Praias com suas
úlceras bronzeadas, mares poluídos por estrumes motorizados e
sonorizados, expondo suas belezas finitas e calcificadas de tédio e
ócio. Cidades queimando seus cigarros e defuntos. Fedendo à
interior de vermes expostos. Crianças correndo de um lado para o
outro buscando o sonho perdido de seus pais, perdido em vielas e
livros e lousas descascadas de ignorância. Professores emburrecidos
sapateando como moleques sobre as moedas de seus salários. Policiais
calibrando suas pistolas enferrujadas. Domésticas, lixeiros,
vendedores, doentes terminais, comparando suas vidas estúpidas à de
advogados, empresários, juízes, engenheiros, políticos,
saçaricando suas ideias por baixo das barbas da sociedade senil.
Amontoado de seres se acotovelando diante da TV, da internet, certos
de que sua exímia sabedoria e pedantice pode modificar o status quo
mundial. Sociedade chafurdando o lixo dos pais, e os pais o de seus
pais e avós, numa sucessão de fracassos e perdas e derrotas. Gente
repugnante!
[Trecho
censurado]
Mas olhem
por detrás daquela moita esquecida pelo homem, ressecada pelo tempo.
Observem como se move candidamente mesmo suas companheiras estando
estáticas. De longe um brilho como de estrela tardia concede um
vislumbre do redentor as avessas. O brilho que ninguém percebe
espoca e troveja, adiante um corpo tomba, e depois outro e outro.
Gritos, correria, os dias mudam. Pela lente do fuzil camuflado pela
moita um olho espreita com dor a lástima humana. Uma dor necessária.
Quem mata
pouco tem a explicar. Quem morre já não fala. Cada vida é um
soluço de prazer e pesar. Cada gota de sangue uma ode ao acaso, ao
ocaso do homem. Homem que jamais foi considerado digno de pisar a
relva. Mas e os amigos e familiares dos que foram libertos da
ojeriza? A dor é quantificada e não exponencial. É doada em doses
certeiras sobre cada homem, vivo ou morto. Não se chora pelo que
partiu mas pelo vazio que tal deixou. É o vazio que machuca, que
enluta, não a falta do outrem. Até na morte os vivos esgaçam seu
egoísmo. Os que se foram dormem em paz, ou gritam em terror. Mas
seria diferente se mortos pela falta de ar nos pulmões, ou pelo
negar do coração em bater? Se atropelados ou afogados a dor seria
atenuada? A morte vem como o vento, de repente e sem avisar, não
pede licença nem dá adeus.
[Trecho
censurado]
Os corpos
são contados e empilhados. Numerados, já não passam de
estatísticas e de lugares ocupados em jazigos. Foram dois, três,
poderiam ser dezenas. O “redentor” é o culpado, e a ele só
resta a justiça, sem sentimentalismos. Regra sobre regra, lei sobre
lei.
[Trecho
censurado]
Quem
segurou a arma? Quem empunhou o sabre? Um rejeitado. Juiz de si
mesmo. Olhos cansados do cansaço. Vistas cheias de nojo de uma
sociedade singular em suas escolhas, pluralista em suas abominações.
Libertou os doentes do câncer da vida, deu-lhes o refresco da
liberdade tardia. Cheio de temores foi expulso da roda dos sábios.
Frustrado, foi derrotado por sua abertura pacífica aos homens de alma
belicista. A dor lhe mostrou que dar-se à outrem é permitir o
terror na alma. Mas calaram os roedores de dinheiro e migalhas,
alguns grasnam, mas já não passam de ambulantes cheios de si. Agora
apavorados e conscientes da existência perene, aguardando a justiça
manietada pela falha humana, gorgolejando aforismos nos dias que
seguem, como se isso bastasse para apaziguar o terror interior vivo
em corações redentores esperando espocar por detrás de outra moita
a morte aos zumbis sem vida.